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24 Rés-do-Chão

24 Rés-do-Chão

Verão com o Alex

Parece-me que toda a gente se cansou de conhecer o mundo e o vê sempre da mesma forma, com as mesmas cores e segue exactamente as mesmas regras para viver nele como se houvesse um manual obrigatório. Eu não quero ter sempre dias iguais.

Isto tudo tem uma razão de ser e remonta ao verão em que conheci o Alex, à dois anos atrás. O Alex era um francês de, na altura, 17 anos e eu uma portuguesa de 19. Ele alto e loiro com uns olhos que traiam a sua cara de menino bem comportado, a minha avô gostou logo dele, até porque os seus avós eram conhecidos dos meus. Se a minha avô ao menos soubesse do que era feito este francês.

 

Carta para aquele que ficou em Janeiro de 2011

Dois anos e dois meses, certos. Emocional bitch. O certo é que já se passaram dois anos e dois meses que cortaste a corda, não me perguntes o porquê de no meio de tantas datas ter decorado esta, mas nem me vou dar ao trabalho de tentar perceber o que está por detrás disso.

Durante estes dois anos e pouco, eu fui levando a minha vida para a frente, no início, como sabes, foi complicado, mas quando a cabeça e o coração decidem querer o mesmo, esquecer é possível e ajuda teres deixado de me importunar. Sei que também levaste a tua para outros lugares e para outros braços, pelo menos durante uma parte dessa viagem, lamento que não tenha resultado, sim, lamento mesmo. Fica sabendo que te desejo o melhor, mas também desejo que esse melhor seja a uma distância segura de mim, porque caminhos separados nestes anos foi o que me fez avançar.

Não sei ao certo descrever o que senti por ti, porque não foi amor, deixei à muito de mandar essa palavra ao ar, mas talvez a intimidade que consegui criar contigo me tenha marcado, porra, marcou imenso, e mais uma vez não merece a minha atenção, porque pertence ao passado e nada dói mais do que reabrir velhas feridas à procura de soluções para a curar de vez, cicatrizes ficam para sempre. É por isso, que te mantenho no fundo da gaveta, mas como diz a Nina Simone, numa das suas músicas, eu estou sem ti muito bem, excepto às vezes, mas não julgues tu que são muitas, porque contam-se pelos dedos, mas como tenho a cicatriz, basta pôr-lhe os olhos em cima uma vez para lembrar do que levou a que ela existisse, passem os anos que passarem. E se te posso dizer isto em modo de confissão, sabendo que te vai passar ao lado, fizeste com que tivesse um tipo de rapaz que me atrai particularmente, e não sei se me irrita o facto de todos terem uma característica que identifico em ti ou se me irrita o facto de serem raros esses rapazes. Seja como for, tu deixaste algumas amolgadelas e essas nem eu nem o trabalho em equipa do Tico e Teco com o Idiota do meu coração conseguem resolver.

Portanto, hoje pensei em ti, e voltei a lembrar-me que de ti quero só a vaga lembrança de quem foi passante pelos meus caminhos, porque embora não haja ódio por ti, há amor próprio por mim e alguém que resolveu admitir perante parte do seu mundo que eu fui apenas uma tentativa de "reencarnação" de um velho amor, merece o menor tempo possível da minha atenção. Foste bom e foste mau, e como percebo com os meus poucos 20 anos de idade, tudo é assim na vida, mas embora na altura não soubesse que a moeda ia virar, hoje posso escolher não vê-la em qualquer uma das suas faces. Hoje, foste apenas um nó na garganta de que tinha que me desfazer.

Come to an end.

Tu já não és o rapaz que expelia charme e que com esse sorriso, que pega apenas num dos cantos, conseguia derreter-me as entranhas por completo. Eu hoje olho para ti e não vejo a luz que existia no teu rosto, os teus olhos estão apagados, como se a vida tivesse sido enterrada noutra qualquer parte do teu corpo. Por favor, diz-me que estou enganada. Mas... que fizeste aos caracóis? Até o teu corpo me parece estranho.

Consigo lembrar-me dos vários momentos que passei contigo e não sou poupada nos pormenores, até porque num qualquer blogue, há uns anos, os descrevi com exactidão. E é engraçado que os anos passam, mas tu vais ficando e eu caindo no enredo por qualquer migalha que vamos deixando no caminho um do outro e que logo deixa de ser suficiente. Ficaste, caí. Pretérito perfeito, perfeito para nós os dois.

Eras um cavalheiro, com a pitada de ousadia e subtileza que te fazia o meu rapaz, o meu fruto proibido que no final do dia, nas horas tardias, já não era assim tão proibido, talvez agora seja contra os meus princípios, mas foste e és o risco que nunca me arrependi de correr.

Vejo agora que é mais complicado falar de ti do que queria crer. Sinto-me como se fosse uma despedida e sinto-me triste, ironicamente, eu que sempre escrevi sobre ti e sobre a forma horrenda com que me prendias e a minha necessidade de ser livre. Também admiti que não te queria fora da minha vida de uma forma definitiva, mas não tenho grande palavra nesse aspecto quando somos dois a comando do jogo.

Talvez nem te apercebas, mas estás a afastar-me, estás a fazer-me querer-te longe. E seria pouco dizer que me tinhas exactamente onde querias e quando querias. Nada disto muda o teu quotidiano e não mudará o meu, mas caindo nos clichés, vou dizer que o coração ressente-se porque já te conhece, acomodou-te lá num canto e estimou-te o quanto pôde. Só que as migalhas acabaram-se. Tu já não és tu, és alguém que se deixou engolir pelo deleite e efemeridade da vida.

Já não preciso de viver nos intervalos da tua ausência, porque não é mais uma situação precária. Mas tenho tanto para te dizer. Como o ter saudades tuas, não de ti, mas daquele que me apresentaste há muito, e que me deixou muito tempo sem saber como sair daqui.

Desavindo

A fraqueza pesa-lhe nos olhos, onde o turvo reina. Está deitada, embrulhada sobre si mesma, joelhos ao peito e cabelo em chamas espelhado pela almofada. Um cobertor branco cobre-lhe as formas e quase se funde com a sua pele de porcelana, nua.

Ele está na ponta da cama de casal com o seu fato de má qualidade emaranhado, como que terá visto o chão antes de voltar ao quadro que emoldura, e de pés descalços. Tem os cotovelos nos joelhos e, encaixada nas palmas das mãos, a cabeça de onde todo o senso comum foi surripiado.

Não chora ela nem ele, mas sentem os dois o peso dos minutos que passam. Ela chama por ele, tão levemente, que ele debate se terá sido dito.

Ele levanta-se e deixa cair os braços em derrota; Ela ouve os seus passos sobre o chão de madeira, eles afastam-se e o medo ganha espessura  no seu peito. Como pôde ele ir sem levá-los consigo? Sem ele, de nada lhe servem.

Ela chora para assim adormecer, embrulhada sobre si mesma, esmagando o peito numa tentativa de esmagar o medo e a dor que ele lá plantou. Mal sabe ela que ele sofre por agora saber, por não saber controlar. Mal sabe ele que não imaginou. Não sabe ela ainda que ele nunca foi e se aninhou com ela já depois das lágrimas terem secado, pois onde poderia ter ido ele sem sapatos?

A letter to everyone and noone

Tenho cartas para escrever e não enviar. Umas porque já não tenho a morada, outras porque há coisas que nunca devem ser ditas a outrem, outras porque não acho que seriam entendidas, até porque às vezes a mensagem está nas entrelinhas e outras porque é apenas uma necessidade minha.

Tenho que as escrever mas não sei bem como, por quem começar ou o que dizer ao certo. Como daquelas vezes em que se tem tanto para dizer que as palavras tropeçam umas nas outras para sair e depois nada tem sentido, não quero isso. E depois, por quem começo eu? Não é a toda a hora que algo me faz lembrar daquela pessoa ou da outra, são pequenaos detalhes, como o refrão de uma música, um gesto, um perfume, um filme ou apenas uma conversa.

Portanto, é difícil escrever algo mais íntimo que não seja sobre como correu o meu dia - porque, infelizmente, todos os telemóveis do mundo explodiram. Não, é mais complexo que isso, é um desabafo, é dizer o que nunca foi dito independentemente das razões, porque essas nem sempre são racionais.

Talvez não as tenha que escrever em vão, talvez um dia alguém as encontre como parte da minha herança e veja ali pedaços de quem fui.

Pode ser que amanhã chova e veja um jovem ceder o seu casaco a uma jovem, pode ser que venhas falar-me da nossa antiga e bela amizade e eu não saiba o que dizer, pode ser que o veja de relance e me lembre de anos atrás. Quem sabe para quem hei-de eu escrever primeiro e o que irei eu dizer.

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